Noiserv: “A temática é inesperada quando eu começo a contar”

Cultura

Noiserv: “A temática é inesperada quando eu começo a contar”

Cátia Vilaça, Texto
Rafael Moreira, Fotografia 

Noiserv acaba de lançar o álbum 7305, o número de dias dos seus 20 anos de carreira. Os primeiros anos ainda foram trilhados a par com a carreira na engenharia, que acabaria por ficar de parte quando os mundos deixaram de ser conciliáveis. Já tocou em bandas, mas foi a solo que se afirmou e consolidou a sua identidade musical.

Chamam-lhe “homem-orquestra”, mas a profusão de instrumentos de que se faz acompanhar em palco é apenas uma amostra do universo sonoro de Noiserv, o projeto musical de David Santos. A curiosidade começou com o álbum One Hundred Miles from Thoughtlessness, de 2008, sem uma razão óbvia, embora a descoberta do eBay tenha dado um contributo importante. Sintetizadores que reproduzem sons de comboios e instrumentos sonoros usados em aulas de Matemática da década de 1990 são parte da coleção. A logística também forçou a criatividade: sem espaço para instrumentos de percussão no antigo estúdio, em casa do pai, recorreu a malas e portas para reproduzir o que pretendia. É desse ambiente sonoro que nascem melodias e letras que o próprio David não sabe muito bem de onde vêm. “A temática é inesperada quando eu começo a contar”, descreve, ainda que, posteriormente, consiga identificar um tormento latente na origem da letra.

O novo álbum, 7305, o número de dias dos 20 anos da carreira de Noiserv, tem exemplos desses, que expõem receios e desconhecimento sobre si próprio, e começaram com frases desconexas vindas de ideias já presentes. “Normalmente há uma base melódica, há uma melodia até vocal. Com essa melodia vocal surge um conjunto de palavras e normalmente isso dá-me um mote”, explica.

Esse mote pode surgir em português ou em inglês. Noiserv apresentou-se em 2005 com o EP 56010-92, influenciado pelo grunge e sem outros instrumentos além da voz e guitarra. Durante cinco anos, ouvimo-lo em inglês. Estrear-se-ia a cantar em português quando compôs Palco do Tempo para o documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes. Agora, fica com a sensação de que “muitas vezes é a música que escolhe qual é a língua”. Não será a música, mas o compositor, que aos sons iniciais percebe qual a língua que vai funcionar melhor.

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Há alguma semelhança com o processo que o levou a escrever o livro três-vezes-dez-elevado-a-oito-metros-por-segundo. Não havia um tema sobre o qual quisesse falar, nem sequer quando escreveu a abertura: “Três luzes acenderam ao mesmo tempo em três janelas diferentes”. “Todo o resto da história do livro sou eu, criativamente, ou é a minha imaginação, a tentar perceber que três luzes são aquelas”, conta. Não sabe se a experiência literária terá consequência, e também não fecha a possibilidade de a retomar, quem sabe noutros moldes, já com um tema à partida.

7305 dias representados visualmente num calendário perpétuo. O tempo é um elemento importante do último disco de Noiserv, inclusive na hora de o dar a conhecer. Embora o álbum tenha sido lançado em outubro, cada um dos nove temas que o compõem foram sendo apresentados nos meses anteriores, um por mês. É uma forma de contrariar os tempos acelerados em que vivemos e de respeitar a individualidade de cada música, dando tempo a que seja escutada, apreciada, e também divulgada nas entrevistas que o músico ia dando.

David para lá de Noiserv

Noiserv “nasceu” no Festival Termómetro Unplugged de 2005, onde levou os três temas que haviam de compor o EP 56010-92. Mas David também compôs para teatro e cinema e colaborou com bandas, sendo um dos membros fundadores dos You Cant’t Win, Charlie Brown. É nesse formato colaborativo que se sente mais liberto da síndrome de impostor que o acompanha desde os bancos de escola, e que o fazia sentir-se uma “fraude” se os seus trabalhos não fossem exemplares. Embora a partilha seja amparo, foi a solo que se afirmou. Não que imaginasse fazê-lo. David formou-se em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, fez mestrado, teve uma bolsa de investigação e trabalhou numa grande empresa. Ainda na faculdade, criou uma banda com amigos, investiu na criação do estúdio e percebeu que a música era realmente uma paixão, embora não lhe passasse pela cabeça viver disso. A verdade é que foi assumindo mais preponderância, e à beira do lançamento de um álbum decidiu congelar a bolsa durante um ano, convencido de que regressaria e continuaria a conciliar os mundos, mas isso não aconteceu e Noiserv tornou-se um projeto a full-time. Um projeto de experimentação e de amadurecimento. À voz e à guitarra somou-se um teclado, depois um metalofone, e depois parte das dezenas de instrumentos que vai colecionando. “Criei uma diferença clara entre 2005 e 2025 porque hoje em dia sei muito mais coisas”, sublinha, ainda que a vontade de experimentar nunca tenha desaparecido.

Publicado em 5 Junho, 2026 - 09:00
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